Para a viagem, apenas o essencial: macarrão instantâneo, chocolate e rum (Miojo, Lacta Amaro e Bacardi Big Apple, marcas registradas que vão me processar pela escrita dos nomes em vão). Com os produtos na mão, me dirigi ao caixa rápido. Estava em treinamento (e, se dependesse da minha satisfação, não assumiria o cargo).
A fofinha que a assessorava teve que ajudar a colocar a barra de chocolate numa sacola. Depois, era o xampu (mencionei a compra de um Garnier Fructis?) que a máquina não lia o código de barras de nenhum dos lados (só vi um, mas ela deve ter achado que não custava procurar um escondido) e, dando-se por vencida, com o primeiro suspiro de desespero, digitou os numerozinhos. A supervisora, provavelmente acostumada com os embaraços, fez o favor de colocar as compras na sacola.
– Vinte e oito e trinta e cinco, senhor — informou-me, olhando para a tela que indicava vinte e oito e vinte e cinco.
Corrigiu-se, baixinho, só depois que entreguei a nota de cinqüenta
– Não tem nenhuma moedinha? — esmolou.
Mexi a cabeça levemente para o lado esquerdo, pausei, parando tempo e espaço, simulei o tradicional semblante de coitadinha-de-você-que-vai-ter-que-me-dar-troco, então levei a cabeça com mais força para a direita, desfazendo meu topete.
Mal abriu a gaveta da registradora e o troco (R$ 21,75) foi exibido no monitor, ela pediu à gordinha que fosse trocar para ela. A resposta, solene, foi: “Tem aí.” Lentamente, como se insegura de tudo que a rodeia, puxou para cima a primeira nota de 10. “Quase lá”, pensei. Não deu outra: em segundos, a segunda nota do valor já estava em sua mão, sem qualquer ajuda. Mais um pouco, uma moeda de um real. Quem disse que os 75 centavos seriam fáceis?
Pegou uma moeda de cinqüenta. Com ele ainda em punho, como se conquistado depois de um árduo dia de trabalho, balançava a cabeça por sobre a gaveta de muitos dinheiros, organizados pelos bichos neles impressos. Eu não queria bicho, eu queria aquela moeda heptagonal no seu canto direito inferior.
Sem parar de esperar que algo caísse do céu, perguntou: “E agora?”
A enchidinha foi mais direta dessa vez, mas não moveu um músculo abaixo do pescoço para interferir.
– Uma moeda de vinte e cinco centavos. Cinqüenta mais 25 é 75.
Ela capturou a moeda em cheio: sabia onde estava, só não sabia que era ela que faltava! Tentou contar o dinheiro na minha frente, mas se atrapalhou: “Dez, vinte” mostrando a mão com uma nota de dez sob a moeda de um real. Irritado (sou vagabundo, mas tenho coisa melhor para fazer), fui pegar na hora em que ela ia passar de uma mão para a outra para contar; caiu tudo. Enfim com as duas sacolas e o troco, andei para o elevador próximo.
– Moço, a nota!
Nem ouvi, e apertei o passo para alcançar o elevador que quase desceu sem mim. Antes de partir para o estacionamento do subsolo, ouvi o cumprimento ao próximo cliente, um velhinho:
– Boa tarde! Ah, não, agora já é boa noite…
***
Por falar em viagem, uma notícia (boa ou ruim, a seu critério): não vou atualizar o blog neste final de semana. E obrigado, leitores, pelo recorde: O Homem recebeu 100 visitas ontem!
Boa notícia, acho que talvez. :B
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