Preso há décadas em mim por um amor inconsumado, um gozo profundo agora jaz no meu lençol. Podia estar dentro dela, podia já ter dado as caras como uma bela criatura envolta de sangue, suor e lágrimas que a teria feito suar e, após, chorar. É o meu garoto! Ou seria garota? Tanto faz, as criaturas que me dariam esse prazer estão se afogando na densa lagoa branca do desprazer; quase as vejo se mexer, espernear, gritar. Aposto que seriam meninos, dodecagêmeos: um time completo e o técnico.
Parto a pé a caminho do terreiro de umbanda para imacular minha roupa de cama. O vento gelado nos olhos resgata lembranças de acordar em madrugadas invernosas para calar o neném que berrava de frio, fome ou manha. Tive três, com quatro mulheres (não me peça para explicar); só me arrependia quando tinha que acordar na manhã seguinte. Hoje, sem emprego, sinto falta desses tempos, e já não mais tanto daquela antiga paixão irrefreada: ela perdeu um “menino muito bonito”, como alegre contava, na décima primeira semana, e não quis mais saber de engravidar. Poderia ter sido comigo.
Cheguei no terreno; estava coberto de folhas secas. Não tinha ninguém, então ateei fogo, acendi um cigarro e parti, de mãos vazias, antes que as cinzas me alcançassem.
Olha…
(Um dia ainda vou na Umbanda tomar cachaça, borá?)