Moacyr Scliar disse que todo novo escritor é autobiográfico.
Amâncio, 18 anos, não era exceção. Mas, com um pouco de experiência, aprendeu a mudar algumas coisas e não se descrever demais.
Escrevia em terceira pessoa, mudava o sexo, idade e, principalmente, quando sobre experiências traumáticas, seu personagem-ego assumia outra posição.
Era o excluído da turma. Na trama, apenas a moça da cantina que observava e se comovia com o pobre Edward. No final, ele trocou seus óculos reluzentes por uns mais discretos, importados, e foi desprezado por ser endinheirado.
Apanhou da mãe em uma crise histérica que durou uma semana. Ficcionou como a mulher que batia num garoto de rua, com os mesmos requintes de crueldade: apertões nas gorduras dos quadris e cintada nas tempôras.
Quando estava terminando uma travessia, o semáforo verdejou e os carros lhe buzinaram. No mesmo dia colocou no papel que um meteoro atingiu todos os apressados do mundo.
Na história de hoje, ele contaria ser apenas um dos passageiros do motorista bêbado.
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